LETRAS DAS MUSICAS DE VINICIUS DE MORAES
A ARCA DE NOÉ
Sete em cores, de repenteO arco-íris se desataNa água límpida e contenteDo ribeirinho da mata
O sol, ao véu transparenteDa chuva de ouro e de prataResplandece resplendenteNo céu, no chão, na cascata
E abre-se a porta da arcaLentamente surgem francasA alegria e as barbas brancasDo prudente patriarca
Vendo ao longe aquela serraE as planícies tão verdinhasDiz Noé: que boa terraPra plantar as minhas vinhas
Ora vai, na porta abertaDe repente, vacilanteSurge lenta, longa e incertaUma tromba de elefante
E de dentro de um buracoDe uma janela apareceUma cara de macacoQue espia e desaparece
"Os bosques são todos meus!"Ruge soberbo o leão"Também sou filho de Deus!"Um protesta, e o tigre - "Não"
A arca desconjuntadaParece que vai ruirEntre os pulos da bicharadaToda querendo sair
Afinal com muito custoIndo em fila, aos casaisUns com raiva, outros com sustoVão saindo os animais
Os maiores vêm à frenteTrazendo a cabeça erguidaE os fracos, humildementeVêm atrás, como na vida
Longe o arco-íris se esvaiE desde que houve essa históriaQuando o véu da noite caiErguem-se os astros em glória
Enchem o céu de seus caprichosEm meio à noite caladaOuve-se a fala dos bichosNa terra repovoada
A BENÇÃO,BAHIA
Olorô, BahiaNós viemos pedir sua bênção, saravá!Hepa hê, meu guiaNós viemos dormir no colinho de lemanjá!
Nanã Borokô fazer um BulandêEfó, caruru e aluáPimenta bastante pra fazer sofrerBastante mulata para amar
Fazer juntóMeu guia, hêSeu guia, hêBahia!
Saravá, senhoraNossa mãe foi-se embora pra sempre do AfojáA rainha agoraÉ Oxum, é a mãe Menininha do Gantois
Pedir à mãe Olga do Alakêto, hêChamar Iansã para dançarXangô, rei Xangô, Kabueci-elêMeu pai! Oxalá, hepa babá!
A bênção, mãeSenhora mãeMenina mãeRainha!
Olorô, BahiaNós viemos pedir sua bênção, saravá!Hepa hê, meu guiaNós viemos dormir no colinho de lemanjá!
A BRUSCA POESIA DA MULHER
Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passadoMinha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói sem máculaMeu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a bilirrubinaMaria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilosChamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidênciasE comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficasAlinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.Eis que se anuncia de modo sumamente graveA vinda da mulher amada, de cuja fragrânciajá me chega o rastro.É ela uma menina, parece de plumasE seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos Empós meu canto. É ela uma menina.Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarinaQue para mim caminha em pontas, os braços suplicantesDo meu amor em solidão. Sim, eis que os arautosDa descrença começam a encapuçar-se em negros mantosPara cantar seus réquiens e os falsos profetasA ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.Mas nada a detém; ela avança, rigorosaEm rodopios nítidosCriando vácuos onde morrem as aves.Seu corpo, pouco a poucoAbre-se em pétalas... Ei-la que vem vindoComo uma escura rosa voltejanteSurgida de um jardim imenso em trevas.Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!Alvoroçai-me, auroras nascituras!Eis que chega de longe, como a estrelaDe longe, como o tempoA minha amada última!
GAROTA DE IPANEMA
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graçaÉ ela a menina que vem e que passaNum doce balanço, caminho do mar
Moça do corpo dourado, do sol de IpanemaO seu balançado é mais que um poemaÉ a coisa mais linda que eu já vi passar
Ah, por que estou tão sozinho?Ah, por que tudo é tão triste?Ah, a beleza que existeA beleza que não é só minhaQue também passa sozinha
Ah, se ela soubesse que quando ela passaO mundo inteirinho se enche de graçaE fica mais lindo por causa do amor
E outras mais que eu colocatrei depois
terça-feira, 3 de novembro de 2009
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